terça-feira, 14 de setembro de 2010

Salamandras


Arde

O ar de alguém

Que em mim

É mistério

Não muito sério

Não tanto

Que não possa ser pouco

Nas poças do tanto

Que do outro espero


Porque

Sem o mundo

Tornar-me-ia mudo

Mas em torno

Ter-me-ia a mim

Dentro de um escuro

Tenro, sem fim


E basta

como perto

Que do estranho

Me afasta

...


De: Marsial Azevedo


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Fada

Fico os observando. Correm muito, sob o sol quente, olhos baixos, mas sedentos. parecem procurar algo SEMPRE. Algo distante, que com um pouco mais de menos, encontrariam dentro dos bolsos.
Dizem entre si que uns tem asas e sabem voar. Outros não.
Eu nunca vi, as asas, e voar mesmo só quando estão mais atrasados que o normal. (E ele sempre estão anormalmente atrasados...)
Sei lá, deve ser o jeito deles de dizer coisas sem sentido, buscando um rumo. Fazem muito isso.
Porque pra nós, ainda é assim: se dizemos asas, então as batemos atrás das costas, soltando magia no ar, tomando cuidado para não rasgá-las em algum galho, ou amassá-las contra o vidro de algum aranha-céu.
E se dizemos voar... bem, aprendemos isso com as estrelas e os pássaros, e acho que sabemos bem o que estamos fazendo, sempre.

De: Marsial Azevedo

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Vento (Do Diário de bordo escrito para Thane)


Será que os amigos devem então se ver só de vez em quando, se abraçar forte num silêncio desesperado, aflito? Precisam ter um trabalho em comum, uma idéia única perpassando o coração, e só aí poder se olhar, ver o quanto estão todos bonitos e tristes, cheios de sonhos é verdade, mas tudo meio perdido, jogado num jardim grande demais?

E a tal luta unidos contra o poder, a revolução nas ruas cantando juntos a mesma música. os tiros, as prisões? Isso tudo vai ficar mesmo lá em 70, rodeado de neblina e misticismo, de esquecimento e ilusão?

Só porque fomos educados demais a gente não vai poder mais juntar 1000 pessoas na esquina, na rua, no coração? ...

Sabe, os deuses se cansam também, e das coisas que nós:

Da auto-mentira toda ensaiada, dos prestígios de gente burra, dos fracassinhos melados, repetidos.

Só a alegria dos deuses que eu não sei dar muito bem nomes, nem a dos homens, nem a minha ...


De: Marsial Azevedo


P.S: uma pena a HP estar com problemas e o desenho não estar aqui, mas outrora coloco. Bem, é um muro, uma lua crescente e um gato contemplando-a.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Oralidade

Quando despertei para as danças populares foi no chão da Serra Azul, rumo aos Bakairis, com uma barraca e um walk man velho, ainda de fita K-7.
Como aquelas pessoas todas dançavam em uníssono?
Queria conhecer aquela "magia" que unia seres em uma dança coletiva, numa sintonia, comungando de algo através do gesto comum.
O mesmo gesto que me levaria até os Mapuabas, em Uberaba/MG.
Primeiro passo era ir até o Conselho Afro falar com Sarú (Evaldo Alves Cardoso), no bairro Mercês, Rua Bento Ferreira. Além de ter sido muito bem recebida, Sarú me contou uma história que nunca esqueci "eu dava birra porque tinha medo de um andarilho e miha mãe falava, vou chamar o Sarú", era a lenda de seu pseudônimo, feito poetas, como Fernando Pessoa.
Estava presente também o Mestre de capoeira Café, Ubiraci (filho do Sol), o músico e amigo (agora bailarino) Marcelo Taynara.
Sarú me mostrou um mapeamento feito em Minas Gerais que demonstrou a riqueza cultural de Minas Gerais (BRASIL, Municípios com registros de comunidades quilombolas - Segunda Configuração espacial. Geógrafo Rafael Sanzio Araújo dos Anjos, MAPAS Editora: 2005), estando inscritos oficialmente 135 municípios, porém deve-se registrar que os Mapuabas não estão catalogados. Os Mapuabas e as histórias que se perpetuam através de mecanismos não-oficiais, através da oralidade.
A pesquisa sobre a transmissão oral de danças populares na Família Mapuaba pedia um processo de imersão, um dançar prévio antes de redigir, vivenciar a dança para saber observar seu processo de criação.
Maria Luzia Cardoso é a Griô quem ensina os gestos e cantos para o Terno de Congo dos Mapuabas, mestre e portadora da tradição oral.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Pureza


Como será descobrir a parte em nós que é eterna, imortal?

Será mesmo preciso tanta vela, incenso, água no choco, tambor na surdina? Chamar os guias, reverência, vidas passadas, talismãs? Limpeza astral, perdão coletivo, individual, ser perdoado também, por tudo, até por si mesmo?

Alquimias, mantras, pedras raraas, gente preciosa sem futuro (porque o passado já era mesmo, e nem era tudo isso), archotes ardendo, flores, mel, nudismo libertário? Viagem xamânica uma vez por mês dentro do parque florestal bagaceira no centro da cidade, encontro com a família estelar, saudação pra lua, pro fogo, pra chuva, pro caralho a quatro? Será preciso projetar nossa sensibilidade em tudo quanto é folha que cai na hora de um pensamento, em canto de bem-te-vi sobre a cerca, achar sinais até na formiga morta sendo levada pelas irmãs? Massoterapia com amigas em depressão, roda de macumba branca pra assustar os vizinhos, supertição na contagem de urubus no céu (um é gosto, dois é desgosto, três é casamento), runas, tarô cigano, i-ching e mapa astral pela internet, livro secreto de magia maldita, cheia de nomes impronunciáveis, maçã para gnomo, folha de palmeira pra fada feita de durapox, leite para criança chorando. E haja leitura esotérica, leitura de mão, de signos e senhas, de sonhos que se repetem, objeto que cai da parede (e nada de varrer os cacos pra filha não furar o pé, aí a menina se machuca e é tudo inveja dos outros), barulho na área de serviço (fantasma ou demônio?), comprar um telescópio caríssimo esperando extraterrestre aparecer pra dizer as verdades vindouras, futuras (e depois não ter dinheiro pra beber com os amigos e é tudo inveja dos outros). E reler todos os símbolos escondidos no Juízo Final, esperar 2012, rezar, orar, meditar, transcender (e comprar mais um dicionário pra saber escrever a mesma coisa com diversos nomes), descobrir a dança pessoal, a interpessoal, a transpessoal, a multipessoal, a caralhopessoal!, e buscar, almejar, querer, desejar, pedir, clamar, implorar, insistir (viu como funciona o dicionário?).


Ou só uma caminhada miúda sob o sol das cinco basta?...


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Unicórnio (Do livro "Mundos Miúdos", escrito por Marsial Azevedo para seu amor Vasni Ferreira)

O cavalo tentou ser comum.
Relinchou, trotou, comeu aveia,e spreguiçou-se no feno macio.

Mas à noite, sob o brilho frio das estrelas, fes todos sonharem:
O pai desbravou campinas interiores.
A mãe tornou-se rainha vestida de nada, feliz, feliz.
As crianças entenderam tudo e searam flores com os próprios dentes.
O cachorro viveu para sempre, como nunca...

Mesmo querendo, unicórnios não abdicam de seus mágicos chifres.

domingo, 5 de setembro de 2010

Medo



"Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu - o que quero e sobrequero -: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim."
Grande Sertão: veredas
Guimarães Rosa

"Viver é muito perigoso", "viver é um descuido prosseguido", mas o jagunço, com tiro certeiro, afirma que "viver é etcétera". A infinidade de veredas que podemos perfilar na oração de nossas ações. As possibilidades podem estar sob as sombras dos nossos receios.

O homem e suas projeções, ações e omissões num mundo indiferente. Os conflitos humanos construindo e destruindo as teias de vivências. É necessário viver o paradoxo. Ser heroicamente autor de nossas covardias... Será? E a coragem de criar, de retalhar o medo na intimidade e desafiar o mundo como Riobaldo desafia ao lançar-se num pacto com o representante do Mal?

A coragem de construir alicerces para nossa incompletude. Assumir o risco pelo dano que podemos nos causar... "Viver é etcétera..." Riobaldo reacendeu a coragem na conquista de um novo espaço no mundo.

O mundo é indiferente, o mal é apenas uma projeção... O ser é o cerne de seu temor, o vir a ser e o não ser... os grandes interditos... O direito está em ser o único perigo real.

"Medo agarra a gente é pelo enraizado." Estar preso às raízes pode impossibilitar um olhar mais amplo para as conquistas dos novos horizontes. Presos às limitações dos sentidos, resta-nos permanecer na situação, culpando o medo e o remorso por nossa inação.
Na vida devemos valorizar nossas origens nas raízes que nos prendem aos solos, mas devemos construir nossas antenas para poder compartilhar as inovações do mundo e enfrentá-las com segurança.

"Só temos que temer o próprio medo." Edgar Morin, com outras palavras, afirma o direito declarado por Riobaldo e elabora o mistério "Todo mistério do mundo está no nosso espírito. Todas as estruturas do nosso espírito são projetadas ao exterior, sobre o mundo."

A realidade se perde, pois só pode ser concebida se o sentimento for iniciado no homem e nele terminar com a atitude de um pacto em que o medo passa a compor para um objetivo... Contudo, quando o homem perde a noção da extensão de si e dos seus atos, os sentimentos são projetados para o outro, o medo surge como a impotência de ser para si, como a negação de ser para o outro.
Guimarães Rosa desvenda os sertões, abre veredas de lucidez e sensibilidade por intermédio do jagunço Teobaldo. Quantas são as passagens que poderiam ser objetos de ensaios! Quantas exclamações salientam a pluralidade do homem! Quantos sertões existem a serem desbravados!
O final do romance umedece todas as sensações. A morte de Diadorim, o menino da travessia do São Francisco que cresceu, cruzou os sertões em vida de vingança e morreu em combate num corpo feminino, é toda a poesia. Neste momento a prosa de Guimarães Rosa é imagem, som e pensamento - as veredas, os versos a construir o poema-sertão.

O leitor, seduzido, vivencia a emoção sem poder decifrar a simbologia de tantas metáforas, envolve-se de forma plena sem ter a real percepção de suas emoções. O encontro de Teobaldo e Diadorim se dá na impossibilidade. O mistério se apaga nos finos lábios que, calados, se tornam sertão.
O ser humano na travessia, muitas vezes teme ousar por novas veredas, amedronta-se diante de novas abordagens - a incapacidade aniquila o paradoxo e estagna o homem na limitação do perigo aparente.

Guimarães Rosa ousou. Criou uma nova linguagem e inovou no desenvolvimento do enredo, retratando áridas vidas que compõem os sertões do mundo, sem temer a crítica. O grande desafio estava em transformar em literatura a sua percepção do mundo e dos semelhantes.

Ninguém teve o direito de lhe fazer sentir medo. Nós, leitores, admiramos sua coragem criativa e sua grande obra e devemos nos preencher das metáforas do caminho para assumir o pacto com nossa ambigüidade.

Conscientes de que o medo se instaura na ausência da força de uma realização. Concretizemos nossos ideais para estabilizarmo-nos diante da confusão das coisas num futuro incerto dentro da perspectivas dos caminhos que se descobrem nos primeiros passos.

Texto de autoria de Helena Sut


Bello

A partilha com Lucimar Bello foi um verdadeiro estímulo. Os Cartemas, a gentileza e a simpatia como estado de diferença foram atitudes que motivaram a vontade de ir adiante.

"Cada dia eu quero menos", assim Lucimar começava a exposição partilhada de seu trabalho de Pós-doutorado, que compilava em algumas palavras-chaves a essência de sua obra.

ESPINOSA FOUCALT GUATTARI ALMODOVAR LUIZ ORLANDI HÉLIO OITICICA LYGIA CLARK ANNA BELLA SARAMAGO CORTÁZAR...

A experiência de vida e atitude desta artista preencheu meu ser de uma fé lúcida e vontade de saber mais sobre o universo da oralidade.

Como a arte é transmitida pelo verbo? Como eram as rodas de fogueira?

A oralidade pressupõe um universo de criação pautado na presença, na imersão e no contato.
"A oralidade permite que a música fale e a dança responda", assim cantamos histórias e dançamos poemas (Griô).

Os criadores individuais podem transpor os conhecimentos para os gestuais resignificados.
Suzi Sperber afirma que "os diversos conceitos e preconceitos sobre a oralidade levam a que se tenha uma relação ambígua com ela. por um lado existe a valorização da oralidade e o reconhecimento de riqueza das memórias. Por outro lado, quer por preconceitos, quer por falta de cânones, ou padrões de interpretação ou de codificação, é difícil apreender o universo de referências. Por isto, um de meus empenhos deverá ir no sentido de codificar não propriamente a linguagem do corpo, mas a do relato, inferindo valores para a linguagem do corpo".

Atitudes anímicas subjacentes a cada caso. O que caracteriza o narrador popular é a experiência popular, é um modo de existência, que se mistura ao cotidiano da vida do brincante.

Ouvir, estar presente e escutar: Bello. Compartilhar visibilidades.

sábado, 4 de setembro de 2010

A Arte de Ator - De: Luís Otávio Burnier - LUME

Yan, alma para os índios. Estaria ela perdida, esquecida, ou em simples e imperceptível transformação? Uma transformação que por não ser muito percebida, vem a ser perigosa. Como lutar contra o que sequer percebemos, contra o que não se sabe? Será possível ter consciência daquilo que não se percebe?
A arte trabalha antes de mais nada com a percepção. Seu poder principal não está em o quê dizer, mas como. Quando atinge a percepção, é que ela revoluciona. É no inconsciente que encontramos nossa particularidade, nossa individualidade, mas também os elos que nos atam uns aos outros. E a arte, quando logra atingir nosso inconsciente, nossa percepção profunda, vasculha um universo equiparável ao dos sonhos, dos pesadelos, como desejou Artaud.
Mas atingir este universo interior, subjetivo, perceptivo, a arte precisa fazer uso de instrumentos materiais objetivos. Com freqüência se diz que o instrumento de trabalho do ator é o seo corpo. FALSO. O instrumento de trabalho do ator não pode ser o corpo. Não podemos transformar um defunto em ator. O corpo não é algo, e nossa pessoa algo distinto. O corpo é a pessoa. A alma o anima, mas sem ele não seríamos pessoas, mas anjos. Tampouco é o corpo vivo o instrumento de trabalho do ator. A arte é algo que está em vida, ou seja, algo que irradia uma vibração, uma presença. é o corpo-em-vida, como prefere Eugenio Barba, o instrumento do ator.
Existem, no entanto, como nota o próprio Barba, pelo menos duas dimensões interior. As duas formam uma unidade. Esta unidade, no âmbito do trabalho do ator, nem sempre é ou pode ser trabalhada como tal. Ela deve ser vista não como ponto de partida, mas como ponto de chegada. Pode-se, e é muitas vezes necessário, trabalhar estas dimensões separadamente.
No entanto, não se pode perder de vista a unidade. Trabalhar tão-somente a dimensão física e mecânica seria formar jovens belos e fortes, mas não necessariamente atores; trabalhar apenas a dimensão interior poderia ser terapêutico, mas tampouco formaria atores. Uma não existe sem a outra, mesmo que o enfoque possa estar momentaneamente concentrado em uma ou outra destas duas dimensões. A imagem usada por Artaud é novamente bem-vinda: atletas afetivos.
Se o corpo não é tão-somente corpo, mas corpo-em-vida, então ele é o canal por meio do qual o ator entra em contato com aspectos distintos de seu ser gravados em sua memória. O corpo não tem memória, ele é memória, como disse Grotowski.
Trabalhar o ator é, sobretudo e antes de mais nada, preparar seu corpo não para que ele diga, mas para que ele permita dizer. Não mostrar o que ele é, mas revelar o que, por meio dele, se descobre ser. Ser artista é antes de mais nada se predispor a revelar. A revelação pede generosidade e coragem. Uma máscara pode mesquinha e covardemente esconder, ou revelar, dilatando o que não se vê. Depende de como ela é usada. Um corpo também. Podemos nos esconder atrás de nosso corpo, de maneira a deixá-lo belo, e isto não ser uma forma de escamotear o que temos medo de ser ou demonstrar. Ou, ao contrário, por meio do corpo podemos revelar o que somos e sentimos.
O artista descobre por meio de sua arte o sentido das coisas. Ele não diz o sentido, nos permite descobrir um sentido. E, paradoxalmente, este sentido não está em outro lugar se não em nós mesmos. O artista e sua arte abrem, portanto, caminhos que nos permitem entrar em contato com nossa própria percepção profunda, com algo que existe em nós e está adormecido, esquecido. A arte não é senão uma viagem para dentro de nós mesmos, um reatar contato com recantos secretos, esquecidos, com a memória.
A busca do ator, assim como a de todo artista que quer algo mais do que um simples reconhecimento social e econômico, é a incontestável tentativa de reavivar a memória. A verdadeira técnica da arte de ator é aquela que consegue esculpir o corpo e as ações físicas no tempo e no espaço, acordando memórias, dinamizando energias potenciais e humanas, tanto para o ator como para espectador.




sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sobre gatos


Ele gostava que os dedos arranhasse os sofás

Eu gostava do cheiro dele

1/2 bom

1/2 ruim

Répteis poros

Mesmo no escuro era possível ver a silhueta

Afundava as maças do rosto nas terras

o que me atrai nos gatos

é essa subterrânea existência.


Na vitrola Solano Trindade cantava em sol sustenido que o opressor não pôde fechar minha boca, nem maltratar meu corpo, meu poema é contado através dos séculos, Zumbi fio redimido...

1 copo de cachaça




quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Setembro (quase Primavera) vamos de Oswald de Andrade

Para Dolur

meus oito anos

Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

Eu tinha doces* visões
Da cocaína da infância
Nos banhos de astro-rei
Do quintal de minha ânsia
A cidade progredia
Em roda de minha casa
Que os anos não trazem mais
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais

* Nas edições de 1927 e 1945, está grafado "doce". Pareceu-me erro tipográfico. pois o adjetivo no singular não assume função estética especial neste verso, ao contrário do que sucede com o plural "laranjais", na última linha de cada uma das estrofes de que se compõe este poema-paródia.

domingo, 29 de agosto de 2010

Um instante

Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Ferreira Gullar

domingo, 22 de agosto de 2010

E como não dormi... poesia!


Quando uma pessoa vive de verdade, todos os outros também vivem!


Biografia Secreta


Quando eu era menina,

Meus sapatos nunca serviam;

Bolhas de um rosa vivo nos calcanhares.

Não me lembro: será que meus sapatos

eram muito apertados

ou eram grandes demais?


Com o chapéu nas mãos, os coitados dos meus pais

perguntavam ao médico: "Tudo certo com ela?"

"Problemas com os pés", dizia o médico.

"O defeito é grave".

E assim meus pais gastavam seu dinheirinho

em sapatos reforçados

para os pés defeituosos.O médico ameaçava:

"Ela nunca mais pode andar descalça!"


Nos sapatos de chumbo, eu acidentalmente atingia

o lado de dentro dos tornozelos

ao correr ou andar -

os sapatos faziam meus joelhos baterem um no outro,

com os ossos estalando, os tornozelos sangrando.

Mas sem aqueles sapatos, sem nenhum sapato,

os cachorros e eu corríamos como o vento.


Toda criança tem uma vida secreta

longe dos adultos.

E assim, no verão ou na neve,

não fazia diferença, eu escapulia

para uma das verdes salas do trono

na floresta, e lá eu desatava

os mil cordões dos sapatos de ferro,

fazia força para abrir os canos altos e duros,

e arrancava aqueles sapatos de deuzentos quilos

que poderiam atingir e matar uma mula.

E então eu só ficava ali sentada,

uma menininha cantando alto lá-lá-lá

enquanto meus pés balançavam descalços, a escutar.


Forçada de volta

àqueles sapatos ano após ano,

foi então que comecei a planejar

amputar meus pés

só para ver o médico desmaiar,

só para refletir sua visão brutal

de como deveriam ser pés "sem defeito".

"Não andará direito pelo resto da vida ", disse ele.

É grave. Muito grave", disse ele.

Uma vez ouvi uma mãe rica

dizer à filha toda arrumadinha

num banheiro público

onde se pagava dez centavos

para usar o sanitário limpo

em vez de sujo:

"Não deixe seus pés se alargarem;

use sapatos o tempo todo,

até quando for dormir...

Não tenha pés comuns",

aconselhou a mãe.

Fiquei cismada... "mas o pé comum é tão...

bem, é tão bom ele ser comum, não é mesmo?"


"Não!Ela não tem arco nenhum", disse o médico...

"É grave. Muito grave", disse ele.

Aqueles sapatos de ferro... para impedir

meu arco de tocar no chão

"... como uma índia de pés chatos", disse ele.

"Mas meus antepassados", murmurei...

"Eu sou uma índia de pés chatos", disse eu.

E mais tarde, já adulta, ao ver

minhas ancestrais

e seus pés de solas gordas,

eu soube que meus pés foram criados

para andar por campos de lavoura,

para cobrir quilômetros na terra batida noe scuro,

para ingerir nutrientes da terra

direto através das solas,

e para andar empertigada, deslizar

e girar na roda da dança.


Mas naquela época, nas chamadas

"boas maneiras do interior",

o spés das mulheres

costumavam ser criados para tornarem-se

pequenos sacrifícios humanos,

mantidos pequenos demais,

não sem peias,

mas, de certo modo, sem pés.

Incapazes de correr

morro acima,

morro abaixo ou

... de fugir.

Revela-se...

que era exatamente esse o objetivo.


Mas meus pés fugiram comigo

neles de qualquer modo.

E hoje, nada de sapatos reforçados

para me fazer "andar direito",

pois com eles ou sem eles, não importa,

eu nunca andei direito;

... até mesmo hoje, seguindo pela rua,

eu dou uma guinada,

de repente querendo ver alguma coisa,

me juntar àquela marcha,

recuperar essa noite,

falar com alguma pessoa ou algum bicho,

fazer um desvio até uma flor que cresce

através das pedras,

abaixar para falar com uma criança

sobre a ocupação importantíssima

de caçar coelhos para obter créditos acadêmicos,

eu só parar e balançar diante de um amado.

Meus pés e pernas pertencem Àquele que Dança

que também possui meus quadris...

e os sapatos corretivos não

corrigiram nada

que fosse mais necessário para minha Alma.

Todos os ritmos mais importantes,

os jeitos de parar e os passos largos

permaneceram "sem conserto".


Agora, acho que os sapatos talvez sejam

uma das minhas formas cruciais de arte.

Espero que por fim seja aceitável

que eu com frequência use

os tipos de sapatos mais descabidos

e às vezes irreverentes

que sejam possíveis. Por favor,

posso ver os pretos

com rosas vermelhas, aqueles

com tiras que se enrolam e se enrolam no tornozelo,

aqueles com laços atrevidos no calcanhar,

minhas botas de motociclista com biqueira de aço

ou os mocassins de camurça que me deixam

sentir até uma simples semente debaixo da sola?

Acho que por fim chegou a hora

- e sem consultar qualquer médico -

em que posso também andar descalça

sempre que possível,

para que possa realmente enxergar e ouvir...


ESTÉS, Clarissa Pinkola. A ciranda das mulheres sábias. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. p.116.

sábado, 21 de agosto de 2010

Acordar com poesia e dormir com um conto

"Viver é muito perigoso.
Querer o bem com demais força,
de incerto jeito, pode já estar
sendo querer o mal, por principiar.
Esses homens!
Todos puxaram o mundo para si,
para consertar consertado.
Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo"

Guimarães Rosa

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Eu, Patty, Tento conhecer a mim mesma através de meu autor

Há muito tempo eu andava querendo desnudar meu autor. Não sei se ele vai deixar, mas vou tentar.
PATTY - Em primeiro lugar, gostaria de saber se sou homem, mulher e travesti.
PEDRO - Você é mulher, naturalmente. Uma mulher que nunca dorme, mas afinal de contas uma mulher.
PATTY - E por que não durmo? Existem soníferos que fariam qualquer mastodonte roncar. O Roipnol, por exemplo; ouvi os junkies falarem muito bem do Roipnol.
PEDRO - Você não pode dormir porque, para você, o sono significa morte.
PATTY - Pois há pessoas que em estado de catalepsia fazem coisas muito interessantes. Ou pessoas que aproveitam o fato de serem sonâmbulas para se divertir.
PEDRO _ Ah, é? Quem?
PATTY - Um personagem de Copi, por exemplo. è uma mulher que se faz de sonâmbula para transar muito, e depois ela pode dixer que estava dormindo e que não se lembra e não tem culpa de nada.
PEDRO - Então era mentira que estava dormindo. Por que você quer dormir?
PATTY - Não sei. Ouvi outros personagens comentarem que entre uma trepada e outra as pessoas tiram uma soneca.
PEDRO Você não precisa, pois é cheia de vida. O sinal de nossos tempos é a vertiginosidade, a atividade frenética. E você é uma garota típica de nosso tempo.
PATTY - Ultimamente você anda mais preocupado com o meu coração doq ue com a minha xoxota. o que está acontecendo?
PEDRO -Acho que sinto a necessidade de um amor absoluto. Ultimamente proponhoa todo mundo que se case comigo. E é sério.
PATTY - Então sou um simples reflexo seu, essa coisa horrível que se chama "alter ego"?
PEDRO - Não, vocÇe é uma fantasia dos leitores. è o que os leitores gostariam de ser.`
PATTY - Você lê as minhas memórias?
PEDRO - Leio uma vez para ver quantos são os erros de impressão e depois me desesperar.
PATTY - Que dizer qu você também é um leitor. Ou seja, voc~e também gostaria de ser como eu.
PEDRO - Gostaria de ter a sua espontaneidade e seu senso positivo da vida.
PATTY - Escute, por que você não faz uma série de televisão comigo?
PEDRO - Seria difícil encontrar uma atriz.
PATTY - Acho que Morgan Fairchild faria muito bem o papel.
PEDRO - Não, você é mais sexy. Além disso não creio que Morgan Fairchild estivesse disposta a chupar tantas picas. E com certeza na televisão também não permitiriam.
PATTY - Nem nas particularidades?
PEDRO - Não creio.
PATTY - Fale mais de mim, enquanto faço uma coisinha para você.
PEDRO - Não quero que você me faça nada.
PATTY - Diga do que você gosta. Eu me dou bem com tudo.
PEDRO - Fique quieta. Se eu quiser me masturbar, vou saber muito bem como fazer.
PATTY - Como é que você faz?
PEDRO - Sou essencialmente voyeur.
PATTY - Como em Dublê de corpo, o filme de Brian de Palma.
PEDRO - Não, gosto de ver a mim mesmo. Gostaria de filmar minhas próprias trepadas para vê-las depois.
PATTY - Qual a minha relação com Holly Golighty, Pepi e Fran Lebowitz
PEDRO - São suas primas irmãs. Antes de você existir elas já existiam, mas vocês são o mesmo tipo de garotas. Você é um pouco mais ordinária e menos patética.
PATTY - Faço algum esporte para me manter em forma?
PEDRO - Os esportes a aborrecem, inclusive os que estão na moda. Você se mantém em forma por si só.
PATTY - Ficar tanto tempo em pé não me dá varizes? Porque eu odeio varizes.
PEDRO -Você nunca terá varizes. O melhor em você são as pernas. Você é libra, como eu e Brigitte Bardot.
PATTY -Mas as suas pernas são mais parecidas com as de Addy Ventura do que com as de Brigitte. Addy também é Libra?
PEDRO -Não sei. Oscar Wilde também era Libra; provavelmente herdei as pernas dele.
PATTY - Não sei como eram as pernas de Oscar. Sempre prestei atenção no que ele dizia, mas nunca em suas pernas. Por que os homens realmente interessantes nunca são sexys, com exceção de Sam Sheppard?
PEDRO - Pois eu me olho no espelho e me excito.
PATTY - Isso é porque, como todo manchego, você é um rapaz muito prático. Mudando de assunto, eu tenho alguma ideologia?
PEDRO - Você gosta de transar e de ser admirada.
PATTY - O que eu quero saber é se eu sou socialista.
PEDRO - Não, mas voc~e não se importaria de transar com Felipe González.
PATTY - Então, em certo sentido eu sou socialista. Porque com Fraga, por exemplo, eu não iria para a cama, não é mesmo?
PEDRO -Não.
PATTY - E com Tamames e Enrique Curiel?
PEDRO - Com eles sim, inclusive com os dois de uma vez.
PATTY - Você acha que eu deveria propor isso?
PEDRO - Não creio que aceitariam. Você é despachada demais para os homens da esquerda.
PATTY - Bom, por enquanto resolva para mim o assunto do motorista de taxi parecido co o Robert Mitchum. Dele sim é que eu gosto.
PEDRO - Vamos ver.
PATTY - Pedro, acho que depois desta entrevista continuo sem saber nada de você.
PEDRO - Eu, no entanto, já sabia tudo de você.

ALMODÓVAR, Pedro. Patty Diphusa e outros textos. São Paulo: Mratins Fontes, pg.97.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A arte como agente de mudança social, agente de emancipação e educação

A educação é necessariamente um fator de emancipação. Numa época em que ciência e tecnologia rompem as barreiras do aqui e agora, visto que ruminamos o que consumimos e somos todos doentes, oneomaníacos competitivos, "guerreiros" desbravando a selva do capitalismo selvagem.
Agora nos apresentamos "globalmente", conforme a moda em voga, somos pontes, túneis, passaportes para um mundo "moderno", sem fronteiras.
Os efeitos negativos de um processo educacional que não desmascara ideologias, que não reconhece as falhas nas instituições, que fecha indíviduos em condicionamentos sociais é exatamente os mesmos efeitos negativos que sofrem nossas crianças quando são ensinadas sobre o "descobrimento" do Brasil por Pedro Álvares Cabral.
O mito do descobrimento permitiu o genocídio e etnocídio de milhares de populações ameríndias e ainda se faz estátua para serem colocadas nas praças e ainda soltamos foguetes comemorando a independência do Brasil dia 7 de setembro, que coincidentemente é dia do aniversário de minha filha Mayã (12 anos).
Ainda vivenciamos as mesmas eras de opressão, agressão e etnocídio? Na verdade seguimos a trajetória de uma história.
Por isso é preciso identificar a violência, em todos os níveis, do pessoal ao institucional, do interindividual ao integeracional, bem como nas mais variadas formas por ela assumidas e não só nas formas evidentes de violência armada.
O essencial é uma personalidade não-violenta.


Mahatma Gandhi afirma que não-violência e covardia não combinam. "Posso imaginar um homem armado até os dentes, mas que no fundo é um covarde. Mas a verdadeira não-violência é uma impossibilidade sem posse de um destemor inflexível".

Livro "borboleta" pára-raio de loucos

- Se li Pára-raio de Loucos?
- E acaso alguém seria insano o bastante a ponto de não lê-lo?

"Vejo borboleta como um escritor que seduz mais pelas suas imperfeições do que por tudo que sai elaborado e perfeito de suas mãos; posso mesmo dizer que a sua glória e a sua superioridade derivam extamente da sua impotência em finalizar, mais do que do seu abundante vigor. Sua obra nunca exprime na totalidade aquilo que gostaria de dizer exatamente, aquilo que desejaria ter visto perfeitamente: parece ter havido nele o antegosto de uma visão..."

Livro: Pára-raio de loucos
borboletaContos
Fábio Amorim de Matos (borboleta)
Editora Assis

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

De repente: sim!


De repente decidimos trans for Mar (Leminski em Elisa Lucinda)
Eu, tudo isso Sim por Cima
Lilith, Psiquê, Deméter, Sara Kali, Voismecê,
Odoyá!

Símbolos em cirandas
Vendendo ouro velho
Me disfarçando de cozinheira para entrar no bar e encher sua taça
Evoé!
Escutar Esnert Hello entusiasmado.

Traga o violão!
Sentada na escada
Susurrava: " - Me banhei de "shobu" para estar com você.

Por nós # 1 é equação
2 + 2 dar errado então
Eranos Jahrbuch
Sopro

Hórus?
Não, Isís ou Íris, quiero Eros perguntando através dos mortais aquilo que Marsial escreveu para mim
-Qual parte da frase vocês não estão entendendo?

Debaixo das asas!

Eu decorei e aprendi a voar...
Chico cantava "Afasta de mim esse cale-se!"
Laboratório dos sonhos
Com ON incidir de ir para o mesmo lugar comum.

Roberta Ferreira Roldão

an DANÇAS

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Dança

Dança
Roberta Roldão

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