terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Diário de Bordo - 2012 - Abidjan - Costa do Marfim - África do Oeste


“Agradeço aos Deuses que existem por minha alma indomável, sou capitão de meu destino, sou o comandante de minha alma” Mandela

Pela segunda vez coloco meus pés na África, solo que para mim é sagrado e extremamente rico culturalmente, talvez idéias utópicas de uma sonhadora nata, crente na África como berço da humanidade... devaneios daqueles que reverteriam toda a trajetória de colonização para rever ameríndios e africanos livres da estrutura eurocêntrica.

Na primeira vez que aqui estive convivi com africanos em uma atmosfera pacífica, no Senegal, Toubab Dialaw, estando meio que confinada ao incrível universo oferecido pela Ecole dês Sables, onde se respira, come, digere e sonha dança, porém nesta segunda convivência estou na Costa do Marfim e tendo um cotidiano comum aos demais habitantes locais.

Durante toda minha trajetória de estudante e pesquisadora vi e revi filmes e documentários sobre a história da África: “Jardineiro Fiel”; “Diamante de sangue”; “Invictus”; “Hotel Ruanda”... pensava eu ser aquela realidade exagero da indústria do cinema, porém hoje tenho a experiência para dizer que a realidade é bem mais grave do que nos mostram os filmes. A situação do continente africano é de abandono e me parece conivente ao mundo fechar os olhos para essa realidade, ignorando milhares de vidas.

Olho para os olhos das crianças e me pergunto sobre os Direitos Humanos Fundamentais que estudei durante 5 anos na Universidade de Direito. Meu coração não encontra respostas para justificar as calamidades que encontro em cada esquina das ruas africanas. Como pode um empresário, fazendeiro, político ter consciência de tudo que se passa aqui e não fazer NADA? Como esse indivíduo consegue dormir, comer e rezar?

Como fica o espírito de uma pessoa que não possui compaixão, solidariedade e coragem de mudar o mundo em que vive?

O maior mal que alguém pode fazer a outro ser humano é amputar-lhe o espírito, retirar a capacidade de discernimento, impondo ao outro um modo e estilo de vida que não lhe é natural. Exatamente isso é o que fizeram os colonizadores, seja com nossos milhares de ameríndios, hoje confinados em um curral chamado Parque Nacional do Xingú e com os povos africanos. Pautados em uma idéia errônea de superioridade, se acharam no direito de invadir, matar, estimular guerras e patrocinar genocídios e etnocídios, desprovidos de bom senso aceleram o processo já massacrante do capitalismo.

Pobres de espírito, estes homens acreditam que o poder está no dinheiro e não compreendem o valor de princípios humanos como a dignidade, respeito e o mais poderoso de todos os sentimentos: o amor.

Por que seguir o modelo Europeu? Por que se transformar em assassinos brutais, em aniquiladores de esperança? Por que de súbito esses indivíduos explorados e escravizados não despertam?

Qual a diferença entre um ser humano medíocre e um grande líder? As atitudes e a coragem são esses os ingredientes que fizeram Jesus Cristo, Buda, Gandhi, Mandela, Che Guevara, Zumbi mudarem a realidade de milhares de pessoas. Estes homens magníficos acreditaram e fizeram a diferença.

Afirma Dalai Lama “que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo” e o mundo que queremos para nossos filhos e netos não pode ser um mundo pautado em valores materiais, temos que ter força e disciplina para dizer um imenso NÃO a esse modelo de “desenvolvimento” retroativo e falido.

Não! Não queremos o modelo de desenvolvimento de vocês colonizadores, não queremos usar colares de diamantes, não almejamos ouro, carros importados e viagens a Disneylândia. Não queremos ter, queremos SER! Não queremos viver em mansões com piscinas enquanto milhares de crianças morrem de sede. Não vamos vender nossa alma para termos privilégios e contas bancárias gordas! Não queremos ignorar a sabedoria de nossos ancestrais e afogar nossa rica cultura. Não vamos fazer da arte um supérfluo de entretenimento comercial! Não vamos nos calar nunca! Somos o povo da libertação e da luta, estamos dispostos a nascer, morrer e renascer pelas futuras gerações. Queremos educação, emancipação e um modelo de vida que respeite o ser humano. Chega de ladrões engravatados, comerciantes de espíritos, saqueadores de mulheres e crianças. Voltem para sua casa, invasores de terras, malditos homens da civilização, devolvam nossas riquezas naturais, limpe nosso solo, retire daqui essa mentalidade doentia e não voltem mais.
Roberta Roldão

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